Artesãs Lunildes Abreu e Marta Elisa de Oliveira Lobo, que vivem o artesanato desde crianças, fazem parceria de sucesso no resgate da cultura e do folclore de Pirenópolis.

A arte com trabalhos manuais sempre esteve presente na vida das duas desde criança, mas para uma delas o hobby da infância virou profissão. Essa é a artesã Lunildes de Oliveira Abreu, de 62 anos, irmã da também artesã Marta Elisa de Oliveira Lobo, de 70 anos. Juntas, as duas formam uma parceria que dá muito certo. Como elas mesmas dizem são habilidades que se completam.

Há mais de 40 anos, Lenildes dedica sua vida a registrar entre esculturas de cerâmica e barro, pinturas e outras formas de artes plásticas o rico folclore e a cultura de Pirenópolis. Ficou conhecida principalmente por seus pequenos bonecos em barro que retratam os cavaleiros e mascarados das Cavalhadas, a mais forte manifestação popular e cultural do nosso Estado. Esse ofício, inclusive, aprendeu ainda bem jovem, quando conviveu com outra importante artista da cidade, a artesã Maria Beni.

Lenildes e Marta
Lenildes e Marta

Seu trabalho é reconhecido nacionalmente e internacionalmente e está presente em dois importantes museus de artes do Rio de Janeiro: o Museu Casa do Pontal, que reúne um dos maiores e mais significativos acervos de arte popular do país; e o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Os trabalhos de Lunildes estão catalogados em importantes livros de arte e de artesanato popular. A artesão também tem participação em várias mostra de arte, em Pirenópolis, em Goiânia e fora do Estado.

Já Marta Elisa resolveu dedicar-se mais intensamente ao artesanato depois que se aposentou como professora. Mas o fato de ter abraçado o ofício de artesã tardiamente não diminuiu sua empolgação e nem sua criatividade. Sua habilidade com o bordado e outros tipos de costura geram peças exclusivas que retratam minuciosamente os detalhes da cultura e do folclore religioso de Pirenópolis, em especial a Festa do Divino Espírito Santo. Quando começou a trabalhar com a irmã aprendeu a recriar, a reaproveitar o que seria descartado, fazendo com que coisas simples que iriam para o lixo, como revistas e jornais velhos, fossem transformadas em arte.

A reportagem do Portal Eu Amo Piri bateu um papo muito agradável com essas duas legítimas artistas pirenopolinas, que falaram, dentre muitas coisas, sobre a inspiração que têm com o rico folclore da cidade e sobre a importância de se despertar o interesse das pessoas, ainda crianças, pelo ato de criar e fazer arte. Confira!

Eu Amo Piri – Desde quando vocês perceberam esse talento para a arte?

Lunildes – Eu desde criança sempre me identifiquei com trabalhos manuais, principalmente com o barro e as tintas. Também sempre gostei de criar e recriar, de reaproveitar as coisas. Eu acho que essa nossa aptidão veio desde pequenas, até porque a gente não brincava na rua e sim nos quintais, e não tínhamos brinquedos prontos fazíamos tudo. Quando criança, eu já sabia lidar com costura, e eu mesma fazia minhas bonecas e suas roupinhas. Brincávamos de cavaleiros, e as meninas é que faziam as roupas com papel de pão, folha de bananeira. Erámos nós mesmas que bordávamos tudo e usávamos papel de bala e de bombom para dar brilho. Era muita criatividade, pois não se tinha recursos, e a gente usava o que tinha à mão mesmo. Depois fiz dessa criatividade minha profissão, juntamente com o trabalho de funcionária pública da Câmara Municipal. Hoje já são 40 anos trabalhando com artesanato.

Marta – A Lunildes começou bem antes de mim com o artesanato. Ela inclusive ficou muito conhecida pelo seu trabalho com as miniaturas do cavalheiros das Cavalhadas de Pirenópolis. Ela também foi uma das primeiras a ter uma loja de artesanato na cidade, no ano de 1976. Mas indiretamente o artesanato sempre esteve presente na minha vida. Quando criança, eu já sabia bordar, inclusive, nas escolas de antigamente tínhamos a disciplina de Trabalhos Manuais, que era algo muito bom. Minhas avós, tanto por parte de mãe quanto por parte de pai, também trabalhavam com crochê, bordado e tricô, e elas já nos ensinavam muita coisa. Já por volta dos meus 20 anos eu comecei a bordar e a vender algumas peças. Fazia muitos enxovais para bebês, tantos que já perdi as contas. Fazia essa atividade em paralelo com o trabalho de lecionar e a rotina de casa. Para mim era uma terapia. Só depois que eu me aposentei é que comecei a dedicar mais tempo, foi quando eu e a Lenildes começamos a trabalhar juntas.,

Eu Amo Piri – Como é trabalhar em parceria com sua irmã?

Marta – É muito bom! Porque as vezes uma tem uma ideia e a outra aprimora. As vezes uma chega para trabalhar e a outra já adianta as coisas. Eu tenho mais facilidade com o bordado e ela com a cerâmica, acaba que a gente junta nossas habilidades. Existem trabalhos inclusive que se não fizemos juntas, não dá certo, porque são muitos detalhes.

Lunildes
– A gente se completa e intuitivamente uma não se impõe sobre a outra, em momento algum. Eu, por exemplo, adoro criar, buscar novidades, novas técnicas. Adoro futricar lixo, brechós, porque acho que são desses locais é que vêm mil ideias. Já a Marta sabe lidar com os tecidos e borda muito bem. Uma ajuda a outra e os trabalhos saem bem feitos nos mínimos detalhes.

Eu Amo Piri – O que mais inspira o trabalho de vocês?

Lunildes – O cenário da cidade de Pirenópolis, sua cultura e todo seu rico folclore são nossa maior inspiração. Todos os elementos dessa cultura desde a Catira, a Congada, as Pastorinhas e a própria Cavalhada, que é a grande manifestação popular pirenopolina, e sempre estiveram presentes no meu artesanato, e claro, agora nos trabalhos que faço junto com a Marta. Inclusive tem um trabalho que fizemos juntas em que usamos uma técnica, que se não me engano, é muita usada no artesanato peruano. É um quadro, mas não é uma pintura. Usamos muito tecido, arame para fazer os bonecos e as casas e depois usamos uma moldura de feltro. Esse trabalho, inclusive, foi comprado pelo professor Laurent Olivier Vidal (da Universidade La Rochelle, na França). Ele participou do II Simpósio Expressões e Saberes do Cerrado realizado aqui em Pirenópolis.

Marta
– A Festa do Divino é realmente a nossa principal inspiração. Seus elementos e personagens. Recentemente eu e a Lunildes fizemos esse trabalho que foi comprado pelo professor Laurent e que ficou muito bonito. A peça retrata todo o simbolismo da Festa do Divino com as Pastorinhas, Cavalhadas, os Mascarados, as Congadas.

Eu Amo Piri – O que vocês buscam com o trabalho de vocês?

Lunildes – Além de ganhar a vida com isso e de gostar muito do que faço, eu tento realmente resgatar esse nosso rico folclore e manter as tradições. Isso é muito importante principalmente para as crianças, que irão dar continuidade a essa arte. Vejo muito isso nas minhas próprias netas, que desde pequenas mexem com barro e costura. É brincando que elas vão tendo o interesse, vão aprendendo o que é arte, as lições e mensagens do nosso folclore e da nossa cultura. Eu sempre falo, mesmo com aquelas crianças mais arredias que muitas vezes não querem saber de arte,que trabalhar com as mãos e estar em harmonia consigo mesma, é um dom divino.

Marta – Tentamos com nosso trabalho manter as tradições e mostrar o nosso folclore. Também trabalhamos muito com reaproveitamento de diversos matérias, papelão, retalhos, botões, jornais e revistas velhas, bijuterias antigas, muita coisa. Isso inclusive sempre foi uma grande preocupação nossa.

Eu Amo Piri – Na opinião de vocês qual tem sido o principal desafio para despertar o interesse das futuras gerações para as artes plásticas e para a preservação do folclore?

Marta – Acho que o grande problema é o imediatismo das pessoas nos dias de hoje, principalmente dos mais jovens. Hoje os jovens estão acostumados a resolver as coisas num toque, por isso não têm paciência. Essa é até uma preocupação nossa quando somos convidadas para fazer uma oficina com crianças. Buscamos sempre propor uma coisa que eles terminem rápido. Se for algo que demore muito, elas desistem logo. Tentamos primeiro despertar o interesse pelo artesanato e pela arte de uma forma geral. Vejo muito isso nas minhas próprias netas, que sempre me pedem para ensinar algo para elas. Eu explico que é preciso olhar a peça e saber admirar um trabalho de arte e depois tem que tentar fazer. Se não tentar fazer a criatividade não vem. A criatividade é algo que não está no racional, mas no subjetivo, e ao tentar fazer ela é provocada e ai ela emerge.

Lunildes – A pessoa que se concentra no ato de criar, ela volta para si mesma, e consegue exteriorizar sentimentos e colocar arte no que está fazendo. Isso, para mim, é algo Divino. Talvez falte essa conscientização, em saber quais os benefícios que a prática da arte pode trazer para a vida de uma pessoa. Mesmo que no futuro uma criança não se torne um artista ou viva disso, a aptidão e a sensibilidade que foram desenvolvidas irão continuar. Já se sabe que uma criança que faz algum trabalho manual, com barro, pintura ou até mesmo com massinha de modelar, desenvolve melhor a concentração, a precisão com as mãos e a criatividade, e tudo isso a pessoa poderá usar na sua profissão, seja ela qual for.

Por Anderson Costa

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