Considerada, desde 2010, Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, a Festa do Divino em Pirenópolis é constituída de vários elementos, personagens e manifestações folclóricas que demonstram o quão ricos são a tradição e o folclore do nosso povo. Uma dessas manifestações culturais é a encenação das Pastorinhas, marcada este ano para ser realizada nos dias 13 e 14 de maio, no Teatro Municipal Sebastião Pompeu de Pina.

A encenação foi introduzida na Festa do Divino de Pirenópolis no ano de 1922, pelo telegrafista pernambucano Alonso Machado. O bailado de origem portuguesa compõe-se de representações coloridas e movimentadas com cantos e danças dramatizados principalmente por moças. O enredo principal trata da visita das Pastorinhas que seguem a Belém com o intuito de homenagear o menino Jesus. No Brasil, essa tradição foi introduzida pelos padres jesuítas no século XVI.

Ao todo, são 34 personagens, sendo 12 pastoras do cordão vermelho e 12 do cordão azul, comandadas respectivamente pela Pastora Mestra e Contramestra. Os papéis interpretados por atores masculinos são apenas três: o Velho Simão (que comanda as pastorinhas até Belém), o Benjamim (encenado por um menino com idade entre 7 e 10 anos) e o capeta. Além desses, fazem parte da encenação a Cigana Cira (que é convertida ao cristianismo), a pastora Diana (que representa os dois cordões) e as alegorias Religião, Fé, Esperança e Caridade. O espetáculo tem duração, em geral, de duas horas e meia.

Apesar da encenação ter maior incidência de representações durantes os festejos natalinos, em Pirenópolis a manifestação folclórica ocorre no período de pentecostes, entre o final de maio e o início de junho.

Maestro
Apesar do telegrafista Alonso Machado ter trazido do nordeste a tradição para Pirenópolis, foi o maestro Joaquim Propício de Pina que, em 1923, fez a primeira regência dessa peça na cidade. A adaptação criada por ele é encenada até hoje.

Com o passar dos anos, a celebração tornou-se tão relevante para os moradores que integrar o espetáculo tinha o status de um début, ou seja, o momento da apresentação das meninas (ou meninas moças, como se dizia antigamente) para a sociedade. “Era muito emocionante. Eu me empolgo até hoje. Era algo em que todas as meninas queriam participar, mas só algumas eram selecionadas”, relembra a administradora Noêmia de Pina Teixeira Melo, de 50 anos, que desde criança participa da encenação das Pastorinhas e hoje é diretora administrativa do espetáculo.

Até hoje, descendentes da família Pina participam da encenação e da organização do festejo. “Sempre ajudei o meu pai que por anos foi delegado da cultura na cidade e por 40 anos fez o papel do Simão Velho. Eu já fiz quase todos os papéis, o da Diana, a Cigana, a mestra, a contramestra. Essa tradição sempre esteve presente na nossa casa, na nossa família”, relata a funcionária pública Séfora Eufrásia de Pina, descendente do maestro. Há três anos ela responde pela direção geral do espetáculo.

Ela lembra que a primeira vez que participou da encenação das pastorinhas foi aos 13 anos de idade. Hoje, aos 50 anos, tenta manter viva a chama das Pastorinhas. “Apesar de ser uma celebração muito importante dentro da Festa do Divino, as jovens já não se empolgam tanto. Para realização desse evento contamos com a ajuda das próprias famílias da cidade, afinal fazemos isso por amor mesmo”, ressalta Séfora.

Orgulho
Mas mesmo diante das dificuldades, essa típica manifestação folclórica e cultural que integra a Festa do Divino em Pirenópolis, movimenta muita gente. Segundo a diretora geral, são mais de 50 pessoas entres participantes e organizadores.

O funcionário público Rogério Jaime, 50 anos, herdou do tio e do pai a tradição de participar da encenação das Pastorinhas. Há três anos, durante a Festa do Divino, ele vive o Velho Simão, um dos três únicos papéis que são encenados por homens.

Também preocupado com o crescente desinteresse da juventude pela tradição, Rogério defende que toda a comunidade pirenopolina resgate suas raízes. “É algo secular, um espetáculo formidável e que conta uma história inspiradora e que merece ser contada várias e várias vezes”, diz com orgulho de quem herdou não só um hábito, mas uma grande responsabilidade. Rogério lembra, inclusive, a única participação de seu pai, José Amorim Jaime, como o Velho Simão, justamente no ano de seu falecimento. “O cajado que uso na encenação foi meu pai quem fez. Ele usou uma única vez e eu hoje sigo com muito orgulho essa tradição que está no DNA da nossa família”, diz.

Nova geração
Já inserida dentro dessa nova geração, a estudante Maria Eduarda de Pina Teixeira Melo, de 14 anos, admite que outras meninas na mesma faixa de idade já não se empolgam tanto em participar da encenação das Pastorinhas. Ela participa do espetáculo desde os 9 anos, quando interpretou a “Fé”, uma das alegorias que aprecem na peça. Este ano ela será a bela Diana, a pastora que fica entre os dois cordões de pastorinhas.

“Acho que hoje tem muita coisa que chama a atenção dos jovens e eles acabam se interessando por outras coisas. Mas eu, como vivi e vivo essa tradição dentro da minha família, acho muito bom participar e acho que vou continuar participando, seja no palco ou na organização. Acredito que, mesmo que os jovens busquem coisas novas, sempre podemos aprender com essas tradições”, afirma Maria Eduarda.

Serviço:
Assunto: encenação das Pastorinhas na Festa do Divino Espírito Santo
Data: dias 13 e 14 de maio
Horário: a partir das 21 horas
Local: Teatro Sebastião Pompeu de Pina – Rua Comendador Joaquim Alves – Centro histórico de Pirenópolis
Ingresso: R$ 10

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