“Vamos ao campo pelejar. A lei do vencedor será firme e valiosa. A do vencido, falsa, infame e mentirosa.” Há mais de 20 anos esta é uma das falas citadas pelo agropecuarista Antônio Roberto Machado, ou Toninho da Babilônia, como é conhecido em Pirenópolis, durante uma das encenações folclóricas mais antigas do Brasil. Desde 1995 ele interpreta o Rei Mouro nas Cavalhadas de Pirenópolis, consideradas o ponto alto da Festa do Divino Espírito Santo. Nos próximos dias 15, 16 e 17 de maio ele e outros 23 cavalheiros (sendo 12 cristão e 12 mouros) irão reviver a batalha ocorrida no século VI, entre Carlos Magno, um guerreiro cristão, e os sarracenos, de religião islâmica, pela defesa da região sul da França. O conflito acabou tornando-se um símbolo da resistência e avanço da religião cristã na luta por terras e novos fiéis.

Realizadas desde 1819, ou seja há quase 200 anos, as Cavalhadas de Pirenópolis ficaram conhecidas nacionalmente e internacionalmente por sua beleza e pompa. Tanto cavaleiros quanto os cavalos são ricamente ornamentados. O teatro ao ar livre é realizado num campo que lembra uma típica arena medieval. Na manifestação folclórica também encontramos os mascarados que representam o povo. Eles saem a cavalo ou a pé, percorrem as ruas da cidade, sozinhos ou em grupos. Protegidos pelo anonimato, só ou em bandos, tomam conta das ruas para pedir dinheiro, pular, dançar, flertar e brincar, animando ainda mais a Festa do Divino Espírito Santo.

Os Reis
Apesar das Cavalhadas fazerem parte da Festa do Divino, que tem um imperador responsável, são os reis (Cristão e Mouro) que montam e organizam o espetáculo. “Definimos quem serão os 12 cavalheiros de cada lado, quem serão os embaixadores. Tudo é feito por meio de um consenso entre os dois reis. Se houver alguma divergência, ai então é feito uma votação entre os membros do grupo”, explica Antônio, que nascido e criado em Pirenópolis diz que sempre sonhou em participar das Cavalhadas.

O intérprete do Rei Mouro conta que os ensaios começam dez dias antes das apresentações e nessas ocasiões a população e visitantes de várias outras cidades e turistas lotam o cavalhódromo (local onde o espetáculo é encenado). “Embora as Cavalhadas façam parte do lado profano da Festa do Divino, na minha opinião é religião também. É o teatro vivo que remonta a luta entre cristãos e mouros, uma batalha importante que existiu”, argumenta Antônio Roberto.

O Rei Mouro e o Rei Cristão também são os responsáveis pela escolha de quem entra no grupo quando surge uma vaga de cavaleiro. Para participar existem alguns critérios básicos. Um deles é ser da cidade ou ter uma ligação forte com ela, ou seja, ter algum parente de Pirenópolis. “Tem que ser maior de 18 anos, ter uma boa noção de montaria, disponibilidade para participar dos ensaios. Mesmo assim a entrada desse novo membro depende de consenso entre os reis. Se houver alguma divergência ai a gente faz uma votação”, explica o comerciante Adail Luiz Cardoso, que interpreta o Rei Cristão e já acumula 35 anos de experiência em Cavalhadas.

Legado
Mesmo estando entre os mais jovens de idade do grupo, Aristofanes Pompeu de Pina acumula muita experiência em cavalhadas. Segundo ele, já são 16 anos participando da encenação. “Já fui mascarado, já fui soldado mouro, soldado cristão”, diz Aristofanes, que tem literalmente a cultura no sangue. Ele é filho do advogado Pompeu Cristóvão de Pina, que por anos foi delegado de cultura da cidade e guardião da história e arte pirenopolina. “Na nossa casa, desde criança, vivemos isso. Quando pequeno, ao invés de super-herói, sempre quis ser cavaleiro das Cavalhadas”, conta.

Tanto Aristofanes quanto seu pai, Pompeu Cristóvão de Pina (falecido em 2014), são descendentes diretos família portuguesa Braz de Pina, que chegou a Pirenópolis em 1780. Vieram para o interior de Goiás fugindo da repressão política que afligia o Rio de Janeiro. Pirenópolis foi escolhida como novo destino da família por já se apresentar, em pleno século XVIII, como um forte centro cultural. Os Braz de Pina foram responsáveis pela fundação, na cidade histórica, de importantes entidades culturais como um museu, um teatro, uma escola e bandas musicais.

Serviço
Assunto: Cavalhadas de Pirenópolis
Data: dias 15, 16 e 17 de maio
Horário: a partir das 13 horas.
Endereço: Rua 21 de abril, Vila Anduzeiro Pirenópolis – GO

Foto: via www.pirenopolis.go.gov.br

Por Anderson Costa

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