Que tal embarcarmos em uma viagem no tempo e conhecer um pouco mais sobre a história de Pirenópolis? A cidade, que tanto cativa os turistas pelo seu charme e paisagem única, completou, no dia 7 de outubro, 290 anos de fundação. Surgiu em razão da exploração de ouro no Brasil e, após esse ciclo, viveu novas etapas em sua história, que incluiu um longo período de retração. Porém, a bela Pirenópolis voltou a ganhar protagonismo com o turismo e soma ao longo dos anos uma rica biografia, cercada de resistência, inovação e curiosidades incríveis para deixar qualquer leitor maravilhado.

Berço cultural
Você sabia que o primeiro jornal do Centro-Oeste nasceu em Pirenópolis? Sim, foi um feito surpreendente de um rico comerciante da região, o escravocrata Joaquim Alves de Oliveira. Conhecido como Comendador Oliveira, ele fundou o jornal A Matutina Meiapontense em 1830. O jornal circulou até 1834 e foi um grande expoente dos ideais iluministas europeus.A redação d’A Matutina era feita pelo Padre Luiz Gonzaga de Camargo Fleury, que, curiosamente, tinha anseios libertários, mesmo submetido ao proprietário do jornal que era o maior escravocrata do Centro-Oeste a época. A Matutina possuía quatro páginas e tinha circulação, no início, bi-semanal. Passou por um auge em sua veiculação e começou a circular três vezes por semana. O jornal tinha um caráter interativo, recebia cartas de leitores, muitos anônimos, mas que opinaram sobre os diversos assuntos do momento. A sede do jornal ficava em um dos casarões do Comendador, hoje localizado no final da Rua Nova, esquina com o início da Rua Santa Cruz.

Primeiro jornal de Goiás, “A Matutina Meiapontense”.

Música
E não é só pela iniciativa do primeiro jornal que a cidade é considerada o berço cultural de Goiás. Em 1830 o Comendador Oliveira criou em Pirenópolis uma banda de música, que era a principal de Goiás até 1851, ano da morte do Comendador. Mas a cultura está mesmo no sangue dos pirenopolinos e em 1868 nasceu a Banda Euterpe, oficial do Estado. E em 1893 foi criada a Banda Phoenix, atuante até nos dias de hoje e considerada a principal banda da região.

Banda Phoenix

 

Lavras do Abade
Por volta de 1880 uma companhia de exploração de minério (Sociedade d’Arena & Cia) foi instalada em uma parte da Serra dos Pireneus, bem na região hoje conhecida por abrigar uma das principais cachoeiras da cidade: a do Abade.Próximo à cachoeira do Abade existiu um grande negócio para explorar ouro na serra, construído uma estrutura nunca antes vista na história de Goiás, que desviava o curso da cachoeira para formar um aqueduto suspenso para “lavar a serra” e encontrar o minério. O local era tão bem estruturado que havia uma vila para abrigar os trabalhadores. O empreendimento era tão grandioso que o dono da companhia, o francês Alfredo de Arena, criou até uma moeda própria para circular na vila. O feito foi reconhecido até pelo imperador do Brasil, D. Pedro II, que recebeu na sede do império imagens (foto) do local para conhecimento do empreendimento.

Lavras do Abade

Primeira revolta ambiental do Brasil
Apesar da grandiosidade do negócio, a comunidade de Pirenópolis sofria com o desgaste ambiental que a exploração ocasionava, principalmente nas águas da cidade. A água dispensada após a contaminação com mercúrio seguia seu percurso natural e desaguava no Rio das Almas, que fica dentro da cidade de Pirenópolis. Revoltados com a poluição do rio, um grupo de vinte moradores subiram mascarados a serra dos Pireneus rumo às Lavras do Abade às 6h30min da manhã do dia 22 de março de 1887 e destruíram a vila, ateando fogo em toda a estrutura da companhia e lutando com os trabalhadores locais. Foi uma verdadeira revolta civil-ambiental em pleno século 19. O incidente foi um caso histórico singular no Centro-Oeste e, pela primeira vez no Brasil, uma comunidade rural foi mobilizada contra uma iniciativa privada por conta de uma destruição ambiental.

Primeira revolta ambiental do Brasil

Missão Cruls
A nossa história é mesmo repleta de curiosidades que, infelizmente, não são contadas em nossos livros de história. Você já ouviu falar que a mudança da capital do Brasil do Rio de Janeiro para o Centro-Oeste foi intencionada ainda no século 19? No final do século, no início do Brasil republicano, o presidente Floriano Peixoto nomeou um cientista belgo-brasileiro (Luís Cruls) para a missão de explorar o planalto central para o incrível intento de demarcar o melhor território do Centro-Oeste brasileiro para se tornar, no futuro, a capital do país. Os republicanos já tinham a intenção de mudança da capital no século retrasado. Não foi uma ideia que surgiu em meados do século 20 como imaginamos. A chamada Comissão Cruls passou por Pirenópolis nos anos de 1892 a 1894 para a demarcação dos limites do Distrito Federal e a determinação do local para a construção de Brasília.

Tombamento
Com o centro histórico conservado e com sua feição original intacta, Pirenópolis foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN) em 1988, como conjunto arquitetônico, urbanístico, paisagístico e histórico. O Centro Histórico é tornado com casarões e igrejas do século 18, como a(1732), a Igreja de Nossa Senhora do Carmo (1754) e a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim (1754), além de prédios de relevante beleza arquitetônica como o Teatro de Pirenópolis, de estilo híbrido entre o colonial e neoclássico, de 1899, e o Cine Teatro Pireneus, em estilo art-déco, de 1919 e a Casa de Câmara e Cadeia construído em 1919 como réplica idêntica do original de 1733.

Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário

 

* Alessandra Curado é mestranda em Comunicação na Universidade Federal de Goiás e pesquisadora da história do jornalismo em Goiás. Atualmente, desenvolve uma pesquisa sobre a importância do jornal A Matutina Meiapontense como formador da esfera pública goiana.

 

 

 

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