Com uma sensibilidade artística nata e autodidata, Roque Pereira foi criador de uma inovadora técnica eco-sustentável de carpintaria e artesanato. O artista ficou famoso transformando as formas retorcidas de árvores mortas em móveis rústicos e de grande beleza

Um poeta da madeira. Assim poderíamos descrever o artesão eco-sustentável Roque Pereira. Nascido no ano de 1944, em Pirenópolis, o artista dedicou a vida a ser exemplo de uma nova relação harmônica entre o homem e a natureza. Autodidata e sem cursar qualquer faculdade ou curso técnico, venceu diversos prêmios nacionais e deixou um legado artístico-ambiental ímpar, quando morreu em 2016. “Uma árvore não tem nada para jogar fora”, dizia o artesão que teve a madeira como principal matéria prima de seu trabalho.

Foi ainda na infância que Roque Pereira percebeu algo de errado na maneira como as pessoas geralmente trabalhavam com a madeira. Sua sensibilidade nata de artista resultou em uma nova técnica de carpintaria e artesanato única em Pirenópolis, transformando as formas retorcidas de árvores mortas em móveis rústicos.

Filho de um comerciante em Pirenópolis e uma dona de casa, Roque Pereira era o caçula entre 12 irmãos. Foi casado duas vezes e destes relacionamentos nasceram quatro filhos: Heráclito Zanoni, Demócrito Alexandre, Roque Samuel, e a mais nova, Áurea Monteiro. Mas na biografia do artesão, um capítulo chama atenção: a sua luta contra o Ato Institucional nº 5 (AI 5) e a Ditadura Militar instaurada no Brasil entre 1964 e 1985.

Um dos filhos, Samuel Pereira, conta que o pai partiu para o Rio de Janeiro de caminhão. O plano era buscar um equipamento gráfico e trazê-lo para Pirenópolis para produção de conteúdo contra o chamado Golpe de 1964. Roque e o amigo, o jornalista Irnaldo Jaime, obtiveram sucesso no subversivo e audacioso plano, e, após voltar da capital carioca, instalaram uma pequena gráfica na cidade histórica goiana. A partir de então começaram a produção de materiais de comunicação que faziam propaganda contra a ditadura. Roque Pereira também integrou a Guerrilha do Araguaia, famoso núcleo de resistência ao regime militar no Brasil, instalado na região Centro-Oeste.

Arte

Mas apesar de seu forte engajamento político, a biografia de Roque Pereira ficou marcada mesmo por seu trabalho com a madeira. “Ele produzia móveis rústicos, mas não como os que vemos hoje. Ele não utilizava prego, parafuso, nada”, explica Samuel, ao destacar que seu pai trazia em sua arte um grande respeito com o meio ambiente e sua principal habilidade era usar o que já não tinha vida na natureza e dar uma “nova vida” como um móvel. O filho conta que ao invés de fazer cortes para que os caules e galhos se adequassem a um projeto de móvel, ele via os contornos dos troncos e buscava entender qual mobiliário a natureza havia construído com aquela peça.

“A madeira é um legado da natureza, mas para ser usado de maneira racional. A indústria moveleira mostra hoje só a matéria-prima da madeira e não a madeira em si, aquela que lembra a árvore, o tronco. A beleza da árvore está nisso. Então quando você pega uma árvore já morta que sofreu todas as intempéries para se fazer um móvel, você vai ver que aquilo se tornou beleza”. As frases são do próprio Roque Pereira e estão no curta “Mobiliário Eco-Sustentável”, um dos vencedores do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica) de 2004.

O trabalho com a madeira rendeu também a esse célebre pirenopolino o Prêmio Nacional Madeiras da Amazônia, Móveis e Design, concedido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Parte das obras de Roque Pereira pode ser conferida em Goiânia, no Parque Areião, região Sul da capital, onde móveis rústicos fazem parte da Vila Ambiental, espaço dedicado a atividades de educação ambiental.

Com o cigarro na mão, seu companheiro até os 72 anos, dois antes de partir, quando deixou o vício a contragosto, ele disse no filme dirigido por Kir-Ir-Sen, que se sentia muito rico. “Já pensou um homem da minha idade ter oportunidade de fazer um trabalho paralelo para natureza e ainda satisfazendo a minha necessidade. (…) sou milionário pela alegria, pela exuberância que eu ainda tenho pela frente, quanto às madeiras, mesmo porque tudo é muito infinito.”

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